terça-feira, 10 de dezembro de 2019


(Num horizonte que só eu contemplo...)

Quebrou-se a minha harmonia nesta noite profunda, com um dedo que ficou sonolento num quarto de ferro crescente. Na montanha solitária, numa estrada da cidade que parece um campo semeado com grãos de nada. Onde as estrelas protestam silenciosamente, vestidas de véus finos, tecidos de seda, de sapos, e dedos infiltrados pela sombra. Eles, os dedos, ficaram calados na antiga estrada da cidade. A música continuou, e colocou a muda estrela mais antiga, diante de mim. Um vento que sentou-se no aquecedor de uma montanha escura. Dentro deste corpo solitário de uma vinha de casta simples. Ele quer dar a mão aos anos futuros, numa boleia para a lua. Mas a lua é uma uva perfumada num céu cristalizado, onde cada trincheira é uma estrela, cada véu é um pôr do sol, cada passo saltado de sapo, cada dedo como um traço de caneta, é uma linha comprimida, cheia de inspiração na aderência dos anos.  E ideias floresceram como cabeças gigantes como órbitas de planetas distantes. Não sonho hoje com o sangue da lua. E descanso. São sonhos da vida que ninguém vai dizer. Num horizonte que só eu contemplo.

(André...)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019




(Como eu detesto escrever sobre o amor...)

Um atalho para um temporal rápido, onde funciona o intemporal, tudo foge na mente, nas asas do corvo. Asas de uma lua fugida, coagida por uma verdadeira ilusão Tem o graal da fonte, o beijo de estrelas humildes. E sinto no coração um abraço de todas as estrelas, mas o meu caminho está perdido na alma da perdição. Aí está a razão, e a substância que permanecem no meio dia da noite, de observar uns lábios, de uma meia noite  de dia, de uma tarde noite de olhares. Um buraco negro azulado das estrelas, programadas para embaraçar, dentro do sentir da  minha ilusão, que quase eu murcho. A sombra da minha ilusão! É uma alucinação! Ordena os meus olhos, que só pode ver a palavra. Aquela que desintegra em amor. É essa a palavra que corre mansa e divina. É a vida do mundo. A história onde ela carrega o segredo de beijos, de bocas humanas. Bem?! Todos os dias a quero beijar, numa sede que não pode ser saciada. É uma mensagem automática divina, de um beijo de boca fechada. Onde sou um incendiário cheio de desejos, passo a tarde em claro e brilhante. Que floresceu com vivas brutas, do meu lado esquerdo do tórax. Um novelo de ilusões, de paixões. Vivo para sempre, sobre a paixão faminta de beijos, de um fogo, de um amor que sonha longe de visões, em ambientes silenciosos. Então gira frenéticamente, nos meus lábios a canção de do som de buraco negro azulado das estrelas. Ela é eterna num cativeiro da ilusão, dentro do meu coração. Como eu detesto escrever sobre o amor.


(André...)

domingo, 8 de dezembro de 2019


(Aquilo que satisfaz, não aquilo que realiza...)

Entre nós e os outros, começa por haver insuperáveis diferenças, já que não há duas pessoas iguais. Séculos de leituras repetidas provam bem que os mesmos escritos atravessam os tempos e deixam marcas diversas em cada leitor, porque quem escreve e quem lê nunca viverá separado do mundo.Esses outros, que não nós, mais iguais a nós, viajaram noutros tempos e habitaram outros lugares que, apesar de não serem nossos, nossos assim se tornaram. Esse  poder da palavra escrita, registada pela mão de todos esses outros a quem tanto devemos, encarregou-sede eliminar fronteiras e de fazer de cada um de nós um outro, se não mesmo o outro. O que podem ter em comum esses homens malditos da literatura, uns e outros em busca permanente, multiplicando-se em sentimentos. Procuram o quê? Talvez a razão da existência… O que é que pode  ser a felicidade e o amor? Ou uma complicada mensagem sentimental, que é a simplicidade?
Misterioso aroma, é o caso de pensar, que se conforma com as leis que o condenam, a fim de melhor se conservar! De onde pode vir essa preferência, que entra a paixão, pelo que impede a felicidade dos amantes, os separa e os martiriza? Dizer que "assim se quer, o amor é lindo", ainda não é responder em profundidade, porque se trata de saber por que se prefere este amor ao outro. Aquilo que  satisfaz, não aquilo que realiza.

(André...)


(7 de Dezembro de 2019...)

Ontem ao passar rente ao número 44 do Largo de São Carlos, em Lisboa. Ouvi alguém gritar, um dito.--("Ó Terras de Portugal...Ó terras onde eu nasci, por muito que goste delas, inda gosto mais de ti... existe algum artista por aqui???".)
Subitamente levantei o meu punho esquerdo ao ar. Então solto pelas ruas e pelos dias, como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo, juntei-me aquela voz, que adimirada que perguntou?--("Não sabia que tinhas o dote artístico?").Quando nós nos olhámos, ficámos, unidos. O sol já a amanhecer, outra noite, para haver outro dia. Ao que fiquei intrigado e respondi, --(" Levantei o meu punho porque pensei, ter ouvido...'existe algum comunista por aqui?'")...7 de Dezembro de 2019.

(André...)


(E saiu...)

Tocaram á campainha, mais uma vez estava sozinha em casa. E correu para esconder o envelope na gaveta de um armário.
Não! Dentro de uma caixa seria o melhor. Ou quem sabe por baixo da almofada do sofá. Estava desnorteada. Escolheu o espaço entre dois livros como esconderijo provisório e guardou. Despenteia o cabelo, e ajeita a fina camisa de dormir. Dirigiu-se para o intercomunicador, olhou para o ecrã, viu que era quem esperava, carregou suavemente no botão, e a porta abriu-se. Ficou diante da porta, de casa á espera da visita. A visita entrou, dirigiram-se para o quarto, e...

(Nota do narrador: Todos sabem o que aconteceu. E deixo isso ao sabor da imaginação e satisfação do leitor.)

...Num amor inteiro, meio corpo nu e ela repousa por completa na cama. Deixando sua forma desarrumada nos lençóis suados.
O que sobrava era o gosto do amor na sua boca, o cheiro do desejo emanava do corpo.
e a noite estendia-se em vão. As respirações  calmas no peito apenas a evaporação do suor  movimentava-se pelo quarto em silêncio. Apenas olhou para aquele corpo sem vida em cima da cama. E saiu.

(André...)


sábado, 7 de dezembro de 2019


(Correu uns passos e apanhou o táxi para casa...)

Depois de adiantar o expediente atrasado, de um modo satisfatório.
Concentrou-se nas requerimentos mais pequenos e separou os três que lhe interessavam mais naquele momento. Nisto o telefone toca, era do departamento de engenharia:

- Oi! Não me digas que ainda não conseguiste tratar dessa papelada toda? - (proferiu ele depois de se identificar.)
- Feito! Mas cheguei uns minutos tarde ao trabalho, estou só a acabar uns requerimentos.
- Não deves trabalhar assim tanto. Crias má fama  aqui em cima. Sabias?
- Não receies o teu emprego de sonho, que não estou a tentar impressionar ninguém. - (e soltou um riso seco). - E logo sempre mantém-se o que combinamos?
- Sim! Já tenho uma garrafa de vinho de reserva, e fico a tua espera na recepção!
- Então está combinado! Assim que acabar desço! Até já!
- Até já!

Depois de acabar a aprovação e assinaturas, em todos os requerimentos, encerrou o computador, vestiu o casaco e dirigiu-se, para a porta do elevador. No elevador olhou para o espelho e viu um autocolante que dizia:

"Um dia destes seremos obrigados a tudo."

E sorriu.

Chegou a recepção, e deparou-se com um silêncio total. Não havia viva alma por ali. Só o porteiro do lado de fora do prédio. Depois de uma tênue espera e adimitir a possibilidade de ninguém aparecer. Deu uns longos passos até ao final do balcão da recepção, e tomou coragem e dirigiu-se para a porta onde se encontrava o porteiro. Passou pela porta automática, e olhou agitada para os dois lados da avenida. Logo depois o porteiro pergunta:

-Em que lhe posso ser útil?

Tentou detectar-lhe sinais de reconhecimento, mas não os alcançou e anunciou-se:

- Sou assistente do Dr. Miranda, da contabilidade. Por acaso não está ninguém na recepção?
- Creio que sim!- ( virou-se para alcançar a recepção com o olhar )- Faz 5 minutos e estavam  duas pessoas a conversar.
- Desculpe incomodar, mas era um senhor que se encontrava lá dentro?
- Sim. Recordo-me que o senhor estava ao telemóvel. Nada mais.
- Estava só?
- Sim! ( respondeu o porteiro prontamente )
- Mas saiu ou voltou para cima?
- Isso é que já não sei dizer-lhe. Com tanta gente a entrar e sair!

Agradeceu-lhe e seguiu para a beira do passeio de pedra. Na esperança de ver um táxi, o telemóvel vibrou, levou as mãos ao bolso de trás das calças e desbloqueou o teclado. Era uma mensagem:

- " Mais logo apareço em tua casa...e desculpa mas tive que fazer um recado ao administrador quer que passe em casa dele...quer que leve os documentos relativos ao processo da Levitas que estamos em fase de conclusão...acho que vamos conseguir a tal parceria...vamos celebrar...levo o vinho o caviar e o champanhe. Bjs."

- Nem sabem da missa a metade! - ( falou em voz alta )

Por sorte e no final de bloquear o teclado do telemóvel, tinha acabado de passar um táxi em serviço, e parou 50 metros mais a frente para deixar um cliente. Correu uns passos e apanhou o táxi para casa.

(André...)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019


(Eram 7:28 da manhã de 8 Março de 2020...)

Corria apressadamente entre sombras de homens que riam, apertavam-na, arfavam como cavalos, numa corrente de escuridão, de uma  perigosa profundidade sem fim. Prosseguia em frente na sua corrida para escapar daquelas sombras.

"AFASTEM-SE! LARGUEM-ME! SOCORRO!"
Gritava a plenos pulmões, mas não obtinha resposta, não havia ninguém á vista. A garganta sufocava a cada passo que dava, e nisto, a perigosa profundidade sem fim, acabou. Ela terminou a corrida, e chegou a uma porta. Mas continuava a sufocar e a soluçar no próprio choro. Ouvia um som estridente vindo do interior da porta, daquela única saída, a cada passo que dava. As sombras cada vez mais próximas, lançam-se sobre o corpo dela, para a  dominar. Mais uma vez sentiu-se  apavorada. Ela esticou o braço numa tentativa desesperada para alcançar a saída daquele pesadelo, mas não conseguiu. Com o corpo dominado pelo terror, lancou-se para um abismo, abriu a boca e gritou.

"AAAHHHH!"
O grito tornou-se num som estridente, que a trouxe ao final do sono, não do pesadelo. Ainda desesperada, estende o braço e derrubou o telemóvel que tocava o alarme. E não só. O movimento atingiu, uma caixa decorativa e o livro que tinha para adormecer. O telemóvel e o livro reuniu-se com o chão. A caixinha partiu-se em cacos, era de porcelana japonesa. Com o ruído e a confusão instalada, abandona a cama antes de saber o que fazer correctamente. Passado alguns segundos recupera. Sente-se zonza e senta-se para pegar e desligar o alarme do telemóvel. Pega no livro fechou-o, e lançou-o  para cima da cama. Por um momento as palpitações do coração reduziram, e olhava concentrada para os cacos de porcelana.
Passa as mãos pelo cabelo húmido da transpiração e recompôe-se o suficiente para levantar o corpo, e ir buscar a pá e vassoura e apanhar os cacos. Abriu a tampa do caixote do lixo e...

"Ui! Já vou atrasada para o trabalho."
Eram 7:28 da manhã de 8 de Março de 2020

(André...)