sexta-feira, 29 de novembro de 2019


(Onde tudo só visto, num só tudo visto...)

Viver diante do escuro, faz qualquer um andar á deriva, num quarto iluminado. Uma cama semi-desarrumada. O povo na rua nem sempre está dormente. E sem qualquer mudança de música, toca o surdo. República democrática de um fadista, num dedilhar de uma guitarra portuguesa, que ecoa de leve na corrupção. Saudades de ti, Ary, que ainda ressoas nas velas deste país, no vento vasto na vasta improbabilidade do amanhã. Ouvido mouco o do rico, que fecha o olho do feliz, que tapa ao pobre o nariz. O cheiro a podre dos humanos. Será um último faro? Será um remendo do antigo fado? Não sei, sem qualquer realismo exacerbado. Acho que será legítimo este rasurado. Mas, ainda podemos ouvir com apenas um tímpano, o que já é audível em uma imagem internacional. Mas, ainda podemos ler com uma iris, as linhas das nebulosas, através de mais um temporal. Chamem de intemporal as tempestades, com quantas palavras se constrói uma Nação. Em toda a noção, nas páginas são publicadas a liberdade de expressão. Será a língua portuguesa a última flor inculta e bela? De certo vai manter-se a tona, na cultura internacional, quando for submersa por baixo existe a mazela. Enquanto isso, uma narina continua em crescimento acelerado. Depois disso, será mais um de nariz avermelhado, de uma constipação da corrupção. Existe mais que um Tribunal para justificar julgamentos. E a padaria já abriu? Será que o preço do pão subiu?
Os cidadãos de olhos fechados contrastam com cidadãs de bocas escancaradas a ver crianças de mãos sujas. Vidas de fases inglórias. Está na hora do verso configurado pelo verbo expressar. Minuto da escuridão temporária, segundo na palavra além de uma ocasião mais do que imaginária ao milésimo. A imensidão mais do que celestial, invade a contenda além dos meandros abandonados, no espaço natural. O tempo cronometrado pelo mesmo tempo, de pensamentos de porcaria, além de uma alforria. Seres imersos numa mesma degradação ambiental, banidos do espaço natural, em uma  paisagem alterada. Aqui vem ele, o pensador. Ali vem ela, a poesia. Depois vêm eles, elas e tudo. Em mais que um olhar, ao pousar no lugar. Como um firmamento artístico estelar. Onde tudo só visto, num só tudo visto.

(André...)


(Uma forma de se situar diante do mundo...)

Aos olhos dele, a sua parceira de primeira hora, a escrita automática, uma ambição, surgiu como alternativa à literatura. Logo se tornou ferramenta do quotidiano, para escrever à margem dos estilos conhecidos. Ao colocar em xeque o seu estatuto de merda, ficava mais à vontade para explorar novas possibilidade. Inclusive no que se beneficiado com uma onda de criatividade. É que o espírito de experimentação funde-se, mesmo com a ideia de outras vanguardas, cujo o seu apogeu entreguerras levou a uma explosão e exaustão. Uma linhagem reflexiva que valoriza o punctum sobre o studium, será  o saber, que previamente assume a óptica subjectiva para emoldurar o conteúdo objectivo ou imaginário ao seu gosto e sentido. A partir daí, as variações de modo e fundo se tornam múltiplas.
À sua maneira de produzir uma escrita voltada para produzir os movimentos líricos da alma, ondulações do devaneio ou sobressaltos da consciência. Mas não chega a constituir uma tendência organizada em grupo ou mobilizada por manifestos, com localização geográfica certa. Que começa por indagar de maneira, a se manter acesa a ambição renovadora.
Num diagnóstico da estudiosa, permanece e transforma-se num convite à reflexão, que leva a uma desorganização da frase e do plano semântico, sob o risco de cair no informal e no balbucio mental. A que permanece atenta aos movimentos líricos da alma e sobressaltos de consciência, conforme a máxima balbudiriana.
Nem consta dentre os balbucios conhecidos. Trata-se, sobretudo, de apontar uma atitude de resguardo, que se apoderou do poema em prosa, em natural decorrência da ressaca vanguardista. Sua matéria aparece aqui e ali, na voz de certos pensamentos e representa uma escrita qualificada em face das angústias emergentes, no contexto, e cujos ventos chegam à atualidade.
Mas também contunde e apunhala, numa forma idêntica, a pequena reflexão surge a partir de certa contusão lírica. Uma palavra serve de ponto de emanação das imagens e, por contrapartida, delineia traços de subjectividade. Ou o flagrante de uma intimidade digna de nota, como no ocorrido ao café da tarde manhã.
Faz parte do poder expressivo dessas
imagens justamente o componente de a casualidade e o contraste que oferecem em
meio ao trivial. Mas não chega sse alarido de cor para acordar as fragas. E a lição que recebia diariamente era a de uma irremediável afonia cósmica, de vez em quando quebrada pelo balido monossilábico dum cordeiro.
Uma forma de se situar diante do mundo.

(André...)

quinta-feira, 28 de novembro de 2019


(Qualquer coisa ou ser...)

Lá se vão os anos e ele já não toma por imagens, as manchetes dos telejornais por realidade. Também nessas imagens as coisas do mundo objetivo desempenham um sentido vital para configurar o ânimo e a subjetividade. Dispostos na mesa, o café, leite e o pão servem de sinais próximos, à altura da mão, mas vindos de outros sinais, a ponto de desencadear uma incerta vontade de falar do mundo distante. Já desde a primeira frase que ele já não toma as manchetes dos matutinos pela realidade,
Lá se vão os anos, e a vida ganha uma camada de permanência que contrasta com a impaciência de certas vontades que não se calam. Fica uma ansiedade perdida, em consonância com as cortinas agitadas. A inquietude, porém, acaba submetida às sentinelas solitárias e à companhia do pão, do café e do leite, novamento submetido às amarras da rotina. Na intimidade do homem maduro, curvado diante das evidências, ressoa uma recomendação silenciosa.
Ao final da paisagem, imóvel que ele vê fora da casa, acaba por predominar e selar a situação, emoldurando-a num sentimento de impotência e condicionamento. A paisagem não se move, o mar contrasta com a cidade, nada mais resta
ao olhar senão declinar-se sobre a linha dos prédios e o maciço das montanhas. Nenhum sinal de vento, nenhuma outra vida, nada que lembre uma força moral pesada como a tempestade. Faz parte dessa atitude não enfatizar os ornamentos de um moinho ou uma melopeia de criança.
Ao contrário essa visão, crítica a recusa dos mecanismos sociais que banalizam a linguagem e continua desejosa de uma expressão outra, em que seja possível uma linguagem pessoal e comprometida com a experiência vivida.
A ênfase do aspecto formal acaba por perder em naturalidade. Para o espírito reflexivo, interessam mais as ambiguidades e torções de sentido. Adequadas as palavras da ironia, do jogo de contrastes ou da liberdade associativa.
Todos esses sentimentos, a partir do apelo presente nas coisas da mesa, de um fora que seria para dentro, de um tudo aquilo que seria um corpo em que mãos, de natureza desconhecida, café e leite e imagens, estariam suadas pregando almofadas de trevas, com a graça, pássaro ao ar fresco, veio empoleirar-se sobre uma pedra. Para além do inteligível, os objetos do mundo sugerem uma dimensão paralela, configurada em cores, formas e na  curiosa a elevação do pássaro. A condição de um a um, corpo em que mãos, de natureza desconhecida, uma almofada de pedra. Uma imagem, o pão, o café e o leite em cima da mesa, ou o pássaro elevar-se sobre a pedra, com graça. Qualquer coisa ou ser.

(André...)


(Os autênticos, os enigmas dos normais...)


O ninguém vivia não apenas de desejo e palavras. Ele detestava as fases feitas, fases de tanto tempo quanto às datas que não sabia. Em particular as que sonhava aos olhos da infância, os livros de ouro e os pequenos diários, que foram queimados. Ignorava-se a sua origem, o que permitia aos curiosos criar inúmeras especulações a respeito. Se ele era um ninguém, mesmo ao ser traído pelo, ou um mísero cidadão deste país, e nesse caso ao menos seria conhecido algum parentesco.
Diziam alguns que ele se desinteressava da condição das palavras, que era um incurável egoísta, outros, ao contrário, sustentavam que, se ele mantinha distância dos outros era por estar infeliz. Algumas relações com mulheres lhe eram atribuídas, mas sempre com misteriosas viajantes que desembarcavam por uns dias e nunca mais apareciam. Os normais  inconfessavam sua impotência para incorporá-lo em seus tratados. Ele surgia com sua presença de surpresa, atraído, pode-se dizer, pelo rosto ou pela voz de um vocábulo em que ninguém havia percebido o poder de sedução, para se tornar um dos enigmas de pequenas poesias, prosas e contos. Assumindo abertamente o martelo da metalo plastica linguagem, impregnado de forte recusa em relação às formulas prontas que se manifestam na linguagem corriqueira. Não por acaso, inicia o dia ou a noite, como um libero, contra o amortecimento que caracteriza certos tipos de comunicação citidiana, e em particular, que lhe encheram os olhos da infância.
Desejoso de superar os limites, o ninguém está fadado a ser um estranho em contraponto à realidade que o circunda, até mesmo no tempo e lugar em que vive. Tocado por um sentimento de exclusão que o obriga á inclusão, a buscar alternativas. Indignado, revoltado e ao mesmo tempo atraído por misteriosas realidades. Resta ao ninguém, manter-se atento à surpresa de conteúdos imprevistos. Sensível ao apelo de um rosto, ou ao estranhamento de uma palavra amiga inesperada, despertado para um conteúdo novo. Só assim pode tomar de modo, os normais, pelos seus contactos.
Os autênticos, os enigmas dos normais.

(André...)

quarta-feira, 27 de novembro de 2019


(Onde uma estupidez, só tem uma resposta...)


Duas belas noites e uma invasão de tarde, e diga-se a verdade, também de ternuras, de cuidados, de abrigo reconfortante. Por fim lá acabou. Nunca mais se viram. Quem quer que fosse, não podiam chamar e assobiar à vontade. Nem se mexiam. Às vezes, perdidos de vício de uma imagem a sua frente. Mas viam. Esperavam pelo início, atiravam-se quando viam o fim, e foram indo! Errar, todos erravam, infelizmente. Pelo menos à frente deles. Mas, enfim, o que sentiam não era lá das piores tormentas, e largavam a voz na altura própria, e honradamente em eternos suspiros. Por isso, aguardavam que viesse outros dias. Isso os comoviam, onde surgiam  outros sonhos de menos risco, que poderiam fazer juntos pela cama. Era um sinal que se respeitavam, que tinham dignidade, com ecos de música, e do mundo. O que não quer dizer que não pudessem tratar de arranjar suas vidas sem dar nas vistas e sem acompanhamentos, que acabavam sempre em cenas desagradáveis. Apenas ver a felicidade dos amantes só comove pela expectativa da infelicidade que os sonda. Uma necessária ameaça da vida e das realidades hostis que afastam duas vidas para longe.
A saudade, a lembrança, e não a presença, os comovem. A presença é inexprimível, não possui uma duração sensível, só pode ser um instante de graça. Não que tivessem medo de qualquer dos finais, que costumavam aparecer nessas ocasiões. Se acontecia nelas, batia-se ali como deuses e deusas, até que as coisas ficassem esclarecidas.  E nunca ficaram do lado dos vencidos! Pelo contrário. Procuravam, contudo, afastar-se de amores e paixões. E disseram sempre que não. Senão, era uma vez dois amantes. Que, para chegar à miséria presente, a maioria pouco se preocupa em conhecer, em conhecer-se. Procura simplesmente o amor mais sensível. Mas ainda é verdadeiro o amor, cuja a feliz realização, em qualquer entrave vem retardar. Assim, querem o desejo mais consciente ou simplesmente o amor mais intenso, desejamos em segredo o obstáculo. Se for preciso, criamos o obstáculo, imagina-mo-lo. Como forças contraditórias, mas que os precipitam na mesma vertigem, os amantes só poderão se unir no instante, em que forem definitivamente privados de toda esperança humana, todo desejo possível. E no seio do obstáculo absoluto e de uma suprema exaltação, que se destrói pela sua realização.O obstáculo, cujo funcionamento foi visto, teria uma origem natural? Retardar o prazer devia ser  a astúcia mais elementar do desejo.
Onde uma estupidez, só tem uma resposta.


(André...)

terça-feira, 26 de novembro de 2019


(Devia ter sido, num certo primeiro amanhecer de inverno...)


Que grande começo de dia, afinal foi esse.
No final de um sonho profundo, acordaram cedo, ainda mal adivinhavam a alvorada pelo buraco da fechadura. Um silêncio de comunhão e de vergonha. O cheiro ausente de suor de sexo, que gelava a quente cama adocicada, entrava pelos corpos dentro e punha-os a sonhar volúpias. E, no meio da nudez das coisas e daquele perfume, e começaram a sentir uma tal ânsia em abrir os lençóis, lançar almofadas ao ar e voltar a delirar. Mas não. Estoiravam-se por falar!
Felizmente, estavam com estranha sensação que os atormentava. Era apenas necessidade de se expandirem, de anunciar ao mundo que não sabia o quê. Aterrados em falsos contactos, recolhidos de medo e pudor, as gargantas secavam, como uma defesa instintiva. Foi o mesmo que nada!
Nenhuma vontade conseguia acalmar o grito
irreprimível que os sufocava. Foi como se de repente caísse um raio na cama e despertassem. Falaram, mas mal a voz lhes voou da boca, ficaram reduzidos a uma pergunta e a um pasmo. Mas nem acabaram sequer de entender o que se passava. Não se fartaram!
E, à semelhança da estranheza dos olhos, uma natureza bela e  desgraçada. A incerteza relativa  da precisão dos intervalos efectuados pelos corpos. Fricção entre a incerteza absoluta, e o sentimento mais provável da grandeza. Exprimem-se em busca de um ritual de magia, onde nenhum sabe para onde vai, nessa certeza. E quando na cama, já tudo desviava dos seus corpos, não havia outro remédio, senão fazer chegar altura de deitar fora um grito de prazer. E gritaram!
De resto, não podiam impedir por mais tempo a saída da saudação à luz que vinha rompendo entre as cortinas do quarto.
Devia ter sido, num certo primeiro amanhecer de inverno.

(André...)


(Daí o meu desejo, sobejo, o risco da perda, a paixão sem fim, a vontade de ir sem regresso...)

Sou um intoxicado, é não de uma paixão, mas do desejo material que utilizo para inspirar-me, uma forma exaltada de auras de belas mulheres. Se a origem desse material é um desejo, consciente ou não, e não quero escapar à insuportável condição terrena, é o meu rudimentar apelo ao desejo. Mesmo assim sou um intoxicado!
Que não deixa de ser uma queda antes de tudo, um escravo de mentir e sentir, sentir e ir.
Psicologicamente, sou apenas mais um, cujos sentidos esbotam numa lágrima, cuja lucidez se encontra no desejo, e a pureza acaba perdida na paixão. Insistindo na necessidade de superar o estado de transe, de chegar a uma lucidez cada vez mais pura e audaciosa, e até mesmo de experimentar as mais altas graças na vida.
Não havia nada à minha volta!
Roubo-me o coração, apossesso-me do meu ser, prendo-me ao mundo e depois a mim, deixo-me apenas ao desejo, ao sangue do meu coração sedento. Ultrapasso o vazio total, onde apenas há o mundo e a musa, uma sombra com o seu objeto, até mesmo o desejo, tudo parece desvanecer-se numa penetração forte, no vazio de toda a paixão, onde tudo impele para cima, e tudo atrai para baixo. E só depende de cada um, corpos e coros onde todos os sentidos são convocados ao sabor das essências do êxtase, que involuntariamente transportamos para dentro do acto. Juntas despertam até memórias esquecidas!
Fisicamente a chave volátil, como pouca coisa consegue ser, entre o ontem e o amanhã, revela-se especialmente no contexto de mais como viajar no tempo. Viagem pelo corpo do mistério do romance, imerso na atmosfera de perdedor orgulho, o desejo de para sempre enaltecer a proeza, o motor dos grandes feitos do sexo entre duas energias de ser. Supostamente por mim nunca condenados, na verdade, jamais condenei a paixão e sexo, acho já me expliquei sobre esse ponto, e pronto.
Digo e insisto ainda, que condenar a paixão em princípio, equivaleria a querer suprimir um dos pólos da tensão vibrante e criadora.
Realmente, isso não é impossível!
O que mais se quer na vida?
Não me iludi com o que me escapou, observei tranquilamente e deixei as palavras embalar a mente. Ler a mente, saber o que alguém pensa e sente,embora muitas vezes se compreenda o que lê, não se sente. Mas como todos os passionais, eu amo temerariamente, a sensação de querer o poder do foco de calor de um corpo, que se experimenta no risco.
Daí o meu desejo, sobejo, o risco da perda, a paixão sem fim, a vontade de ir sem regresso.

(André...)