quinta-feira, 28 de novembro de 2019


(Os autênticos, os enigmas dos normais...)


O ninguém vivia não apenas de desejo e palavras. Ele detestava as fases feitas, fases de tanto tempo quanto às datas que não sabia. Em particular as que sonhava aos olhos da infância, os livros de ouro e os pequenos diários, que foram queimados. Ignorava-se a sua origem, o que permitia aos curiosos criar inúmeras especulações a respeito. Se ele era um ninguém, mesmo ao ser traído pelo, ou um mísero cidadão deste país, e nesse caso ao menos seria conhecido algum parentesco.
Diziam alguns que ele se desinteressava da condição das palavras, que era um incurável egoísta, outros, ao contrário, sustentavam que, se ele mantinha distância dos outros era por estar infeliz. Algumas relações com mulheres lhe eram atribuídas, mas sempre com misteriosas viajantes que desembarcavam por uns dias e nunca mais apareciam. Os normais  inconfessavam sua impotência para incorporá-lo em seus tratados. Ele surgia com sua presença de surpresa, atraído, pode-se dizer, pelo rosto ou pela voz de um vocábulo em que ninguém havia percebido o poder de sedução, para se tornar um dos enigmas de pequenas poesias, prosas e contos. Assumindo abertamente o martelo da metalo plastica linguagem, impregnado de forte recusa em relação às formulas prontas que se manifestam na linguagem corriqueira. Não por acaso, inicia o dia ou a noite, como um libero, contra o amortecimento que caracteriza certos tipos de comunicação citidiana, e em particular, que lhe encheram os olhos da infância.
Desejoso de superar os limites, o ninguém está fadado a ser um estranho em contraponto à realidade que o circunda, até mesmo no tempo e lugar em que vive. Tocado por um sentimento de exclusão que o obriga á inclusão, a buscar alternativas. Indignado, revoltado e ao mesmo tempo atraído por misteriosas realidades. Resta ao ninguém, manter-se atento à surpresa de conteúdos imprevistos. Sensível ao apelo de um rosto, ou ao estranhamento de uma palavra amiga inesperada, despertado para um conteúdo novo. Só assim pode tomar de modo, os normais, pelos seus contactos.
Os autênticos, os enigmas dos normais.

(André...)

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